
No mês de abril de 2026 a Associação de Doulas de Santa Catarina (ADOSC) realiza um passo histórico na consolidação da doulagem como profissão: o registro no Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES).
Embora possa parecer, à primeira vista, um avanço técnico ou burocrático, essa conquista representa, na prática, uma mudança estrutural na forma como as doulas passam a ser reconhecidas dentro do sistema de saúde.
O Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES) é o sistema oficial do Ministério da Saúde responsável por reunir informações sobre todos os estabelecimentos e profissionais que atuam na área da saúde no Brasil.
Estar no CNES significa, essencialmente, existir formalmente dentro da estrutura do sistema de saúde.
Até então, a atuação das doulas, embora respaldada por evidências e cada vez mais presente na prática, acontecia, em grande parte, de forma paralela, sem integração institucional estruturada.
Com o registro da ADOSC, esse cenário começa a se transformar.
A partir desse registro, as doulas associadas passam a poder ser vinculadas a um estabelecimento formal dentro do sistema de saúde, com identificação individual por meio do Cartão Nacional de Saúde (CNS).
Isso representa:
- maior reconhecimento da atuação profissional
- ampliação da visibilidade dentro da rede de saúde
- possibilidade de integração futura com fluxos institucionais
- fortalecimento da identidade profissional das doulas
Mais do que um registro, trata-se de um passo importante na construção da doula como profissional reconhecida e integrada à rede de cuidado.
O impacto mais significativo dessa conquista está no campo das políticas públicas.
A ausência de estruturas formais sempre foi um dos principais obstáculos para a inserção das doulas em programas governamentais, financiamento público e parcerias institucionais.
Com a ADOSC registrada no CNES, abre-se um novo cenário:
- maior viabilidade para captação de recursos públicos
- possibilidade de formalização de projetos com o poder público
- fortalecimento de propostas de inserção de doulas em hospitais e unidades básicas de saúde
- base concreta para construção de modelos de contratação e atuação
Dessa forma, iniciativas que antes eram compreendidas como ações pontuais passam a ter condições reais de se consolidar como políticas públicas estruturadas.
O registro no CNES também fortalece a ADOSC como interlocutora junto a hospitais, secretarias de saúde e demais instituições públicas.
Isso permite que o diálogo avance com maior consistência, baseado não apenas na relevância do trabalho das doulas, mas também em sua inserção formal no sistema.
Na prática, amplia-se a possibilidade de:
- construção de projetos piloto em ambiente hospitalar
- definição de fluxos de atuação
- integração com equipes multiprofissionais
- reconhecimento institucional da presença das doulas
Um avanço alinhado à regulamentação da profissão
Esse avanço ocorre em um momento estratégico, marcado pela recente regulamentação da profissão de doula no Brasil, que reconhece oficialmente sua atuação no apoio físico, emocional e informacional durante o ciclo gravídico-puerperal.
Se a regulamentação representa o reconhecimento jurídico da profissão, o registro no CNES representa um passo concreto em direção à sua implementação no sistema de saúde.
Um marco e, ao mesmo tempo, um ponto de partida
É importante destacar que o registro no CNES não resolve, por si só, todos os desafios relacionados à profissionalização das doulas.
Ele não garante automaticamente financiamento, contratação ou inserção plena na rede.
No entanto, estabelece uma base fundamental: cria as condições institucionais necessárias para que esses caminhos possam ser construídos de forma consistente.
A conquista do registro no CNES é resultado de um trabalho coletivo, construído ao longo de anos por associações de doulas em todo o Brasil, articuladas na defesa da profissionalização e do reconhecimento da categoria.
Esse avanço só foi possível graças à mobilização contínua dessas organizações, em especial à atuação da diretoria da FENADOULAS, que vem, de forma persistente, construindo caminhos para que a doula seja reconhecida não apenas na prática, mas também nas estruturas institucionais do sistema de saúde.
Mais do que um ponto de chegada, trata-se de um marco que representa o fortalecimento de uma luta coletiva e a consolidação de um campo profissional que vem sendo construído com base na organização, na articulação e na incidência política.
A inserção das doulas no sistema de saúde não acontece de forma imediata, mas este é um passo decisivo. A partir dele, torna-se possível avançar na construção de políticas públicas, na ampliação do acesso ao cuidado e no reconhecimento da doula como profissional essencial no ciclo gravídico-puerperal.